9 de set de 2011

CONVERSANDO COM A JORNALISTA TAMYRIS MÍRIAN AMARAL AMORIM




Uma ourives de sentimentos

Todos já tiveram uma jóia de família, um presente de um amor, encontrada na embalagem do salgadinho, de ouro, que seja de tolo. Esquecida dentro de uma caixa de música, penhorada em um momento de aflição. Maria Montillarez dividiu seu tesouro conosco, e agora o resgata em uma única jóia. Os dois romances, Colar de Pérolas e O Pingente, finalmente estão juntos. Lucinda e Lígia se unem para apresentar e revelar suas ziliguices, encontros e desencontros, em uma história entrelaçada que apresenta ao leitor dois lados e o condena ao julgamento. O leitor deve decidir qual faceta, ou se realmente existem dois lados.

Maria Montillarez escreve, se multiplica entre mãe, esposa, mulher, além de ser a Primeira Secretária da Associação Cultural de Escritores Independentes do Brasil em Brasília (ACEIB/DF), se desdobra em mil. No auge de seus 41 anos, a cearense de Muriti se tornou uma autêntica brasiliense. Capaz de reunir em si expressões, paladares e hábitos do Brasil; de ser adepta do gosto popular, como ela mesma se identifica. Graduada em Letras/Inglês, garante que Colar de Pérolas & O Pingente será o último filho de uma família extensa. Maria Montillarez já escreveu 13 livros em apenas seis anos de carreira. Livros permeados pela amizade e com histórias inusitadas e cenários palpáveis, mas como ela mesma lembra a realidade sempre vai além: “A ficção reduz a realidade”.

TA - No prefácio de seu livro, o escritor Yves Hublet comenta que sua mãe lia cordéis e depois você os declamava para as pessoas. Podemos marcar esse momento como o início do seu fascínio pela literatura?
MM - Certamente. A cadência do cordel parece fazer a mente dançar, ao mesmo tempo que é rico em vocabulário. De repente a gente se surpreende mentalizando um ou dois versos. Quanto criança, eu mentalizava um livreto por vez.

TA - E Maria por que esperar tanto tempo para escrever e publicar?
MM - Até onde sei, é comum um filho seguir o ofício de um de seus pais, ou outro ofício aproximado. Meu pai era fazendeiro e minha mãe costureira do Exército nos anos de 1960/76. Não havia nada nessas profissões que me indicasse a literatura, a não ser a leitura do cordel, passatempo comum ao povo rural, naquela época, em minha região. Na adolescência, a luta pela sobrevivência obrigou-me a ver o sonho de ser escritora como algo inalcançável. Algumas pessoas começaram a me dizer que não dava dinheiro, portanto não era meio de vida – e eu precisava de um meio de vida! – Em 1999 minha querida professora Gizele, de Uberlândia, disse que eu devia tentar. Num concurso de redação conheci a poetisa Edith Inge, que me presenteou um de seus livros e deu-me o seu contato, para quando eu escrevesse o meu. Achei aquela “profecia” improvável, mas, finalmente em 2005 meus amigos "obrigaram-me" a escrever: “Maria, conte umas ficções!” Escrevi Colar de Pérolas. Minha professora Gizele e meus amigos atestaram primeiro do que eu que estava mais do que hora de eu deixar a ficcionista em mim falar. Virei a maior “mentirosa” de minha paróquia. (risos)

TA - Quando escreve pensa em um leitor específico? Quem é seu leitor?
MM - Penso em um leitor sensível e no insensível. Os dois podem colher algum fruto do que escrevo. Meu leitor é o adolescente e o adulto. Não arrisquei ainda o universo infantil, infantojuvenil. Eles me intimidam, têm uma lógica que me desafia filosoficamente. A filosofia infantil me trava, porque me comove pela inocência.

TA - Você também já lançou um livro de contos, mas começou com um romance, ou melhor, dois romances. O que mais lhe atrai, romance ou conto? Por quê?
MM - Considero-me romancista, portanto é meu ponto alto. É o que sinto que faço de melhor. Mas o conto Santina teve uma receptividade que me surpreendeu, então parece que o público me aprecia como contista e escrevo para eles. No quesito crônicas, eu também tenho me arriscado e tem dado certo perante o leitor.

TA - Indo contra os conselhos do mercado editorial, você resolveu unir sua jóia, Colar de Pérolas & O Pingente em uma única publicação. Quais são suas expectativas sobre esse novo projeto?
MM - Sou otimista. Uma obra precisa desafiar o leitor como desafia o autor. Senti-me muito desafiada por esse projeto, por isso, acredito que meus leitores sentirão um tipo de atratividade. Deverão ser levados a perguntas do tipo: O que faz alguém produzir na literatura um Colar de Pérolas e seu Pingente? De fato esse é o meu principal trabalho, a minha "Conceição". Dizem que meu livro O Raio não O Partiu é insuperável dentro da minha literatura, mas quem diz isso, não leu Colar de Pérolas & O Pingente.

TA - E o leitor brasileiro, qual é o seu raio X?
MA - Cresceu o número de leitores, mas infelizmente o foco está na literatura estrangeira. Tem muito trabalho nacional de qualidade, mas as editoras preferem apostar em obras que já são best seller noutros países e trazê-las pra cá. Fazem uma divulgação extrema, e aquela literatura, boa ou ruim, vende muito.

TA - Você se uniu a outros autores brasilienses e criaram a ACEIB/DF. Você pode explicar qual é o objetivo da Associação?
MM - São vários, mas o principal é o de ajudar ao escritor iniciante, dizendo a ele o que fazer com aquilo que produziu. O segundo maior objetivo da ACEIB/DF é fomentar a leitura. Temos vários projetos, inclusive com apoio da Secretaria de Justiça e do CDDN (Conselho de Defesa dos Direitos do Negro em Brasília). São projetos muito ambiciosos e que já estão em desenvolvimento.

TA - A amizade é um de seus temas centrais preferidos, por quê?
MM - Porque é na amizade que perdemos o medo de confiar. Quando o outro não é amigo, não é irmão, não há conexão afetiva. Ser amigo é ser irmão, e eu defendo que o mundo é uma grande árvore. Por isso defendo a expansão da amizade, para que esta árvore seja cada vez mais frondosa. Quem tem um grande número de amigos dá menos importância à ganância, ao capitalismo; tende a pensar no irmão-amigo, antes do lucro financeiro.

TA - Maria, você já viveu uma amizade como Lucinda e Lígia? O contrário, quanto a você já ter tido uma amiga como Lucinda também é verdadeiro?
MM – Não, infelizmente. Sempre senti falta dessa unicidade de sentimentos com alguém do mesmo sexo que eu pra discutir moda, cabelo, namorados... Essas coisas que amigas íntimas fazem juntas. Acho que por isso as inventei, pois sou de uma família cujo convívio meu foi maior com meus irmãos. Minhas poucas irmãs se casaram quando eu ainda era criança e só me sobraram irmãos: um era três anos mais velho do que eu; o outro, um ano mais novo. Eu adoraria dizer que sim, já tive uma amiga como Lucinda, mas não tive.Tive e tenho amigas maravilhosas, a maioria de loga data, porém cada uma é diferente da outra, o que significa dizer que não me inspirei em ninguém em específico pra criar Lucinda, Lígia ou qualquer outro personagem do(s) livro(s) em questão. Quando concluí a escrita, senti um vácuo, semelhante ao que se sente após o parto. Pari Lucinda como pari Lígia e os demais personagens. Na medida em que eu os ia realizando, também ia me apaixonando por alguns deles. Entretanto, confesso que amei o deus Andrey, do fundo de minha alma; Lucinda e Lígia são as filhas das quais eu não engravidei, as irmãs com as quais não convivi, as amigas que eu não abracei literalmente. Gostei tanto de escrevê-las que sinto saudades das madrugadas em que ficávamos a sós: eu e elas, e eles todos. É assim em cada llivro, mas com Colar de Pérolas & O Pingente foi mais intenso. Ah se fosse possível reviver aqueles momentos tão especiais!

TA - Qual seria a reação de Maria Montillarez, se tivesse uma amiga como Lígia?
MM - Morreira por ela.

TA - É possível encontrar Maria Montillarez em Colar de Pérolas, ou em O Pingente? Quais momentos é possível identificar essa fusão?
MM - Quando o Colar de Pérolas foi escrito, muitas vezes eu fui confundida com a protagonista Lucinda, por ser narração em 1ª pessoa e porque existe entre mim e ela uma identificação psicológica. Houve uma literata, Vanda Pazos, que classificou essa relação dizendo: "Maria, Lucinda é teu alter ego." O leitor interpreta como quer; não posso interferir nisso. Mas morro de inveja de Lucinda, dos milhões dela, dos quatro filhos, do amor à Lígia. Sinto orgulho em ser comparada àquela grande personagem, mas achei que Lígia merecia replicar e escrevi O Pingente. Nele não sou nem Lígia nem Lucinda; não sou Maria Montillarez. Em O Pingente, Lucinda e Lígia se desvinculam na mente do leitor, da Maria Montillarez, e isso tem um lado que me parece mágico na literatura. O Pingente é como uma prova de que Maria Montillarez nunca existiu como escritora e que Lucinda e Lígia são as verdadeiras escritoras dos romances. Quem leu sobre a vida do autor Conan Doyle, autor de Sherlock Holmes, sabe que a obra "engoliu" o criador. Pouca gente sabe quem foi Doyle, mas quem já não ouviu falar em Sherlock Holmes? Em muitos momentos é possível identificar Maria Montillarez e Lucinda da Consolação, por exemplo, no ideal de realizar um trabalho solidário. O encontro entre mim e Lucinda está mesmo somente no campo dos ideais.

TA - O que me chama a atenção é que Colar de Pérolas possui um ritmo, um vocabulário diferente de O Pingente. São estilos opostos e a sensação é de que as obras são de outras autoras. Essa metamorfose você sentia apenas enquanto produzia, ou invadiu seu dia-a-dia? Pensava como Luncida, ou agia como Lígia?
MM - Para escrever um personagem tenho de pensar como ele, mas não sou capaz de tamanha metamorfose fora da escrita. Dentro dela sim: se o personagem sofre e chora, eu choro; se ele ri, eu rio. Às vezes até bebo, se o personagem está tomando um drink. Mas é claro que há limites, pois escrevo pistoleiros sem ter de dar um único tiro. Nesse âmbito a imaginação e a cosmovisão é que imperam.

TA - Em sua jóia, Colar de Pérolas & O Pingente, você demonstra uma preocupação com a política, o meio ambiente e a sociedade. O que mais lhe aflige atualmente?
MM - O complexo de culpa que tentam inculcar no cidadão comum. Sabemos que o planeta vem sendo agredido, mas sabemos também que a História registra mudanças ciclicas no planeta, como a queda do ou dos meteoro(s) que destruiu animais cuja convivência com o homem parece que seria impossível. Tem a história do dilúvio e tantas outras. Deus gosta de recomeçar (risos). A culpa não é nossa, que somos como formiguinhas. Qual é nossa influência sobre as placas tectônicas que se movem debaixo do mar? Defendo a civilidade, mas sou contra os exageros. Do que falta nos culparem?

TA - Soube que você fez um trabalho de pesquisa e resgate de ditados populares, então qual ditado popular descreve melhor a personalidade de Lucinda? E de Lígia?
MM - É interessante você falar nesse trabalho, que atualmente está nas mãos da profª Draª Maria Auxiliadora, do Núcleo FALE/UFMG, especialista em ditados populares/adágios. Esse é o meu último trabalho como escritora, e por incrível que pareça, será no ramo da literatura científicae não de ficção. O livro se chama A Relevância das Lexias Textuais, Complexas e Compostas na Literatura e na Oralidade. Será meu 13º livro e o último. Aposento-me como escritora, aí. Embora seja uma obra científica, garante boas risadas. Agora, quanto ao ditado que descreve melhor as personagens Lucinda e Lígia eu diria que são dois, aqueles que dizem que "Nunca devemos cuspir no prato em que comemos.", ou ainda "Jamais cuspir pra cima, pra não cair na testa." E esses adágios se aplicariam muito bem as duas amigas.

TA - A amizade entre Lucinda e Lígia se torna uma admiração que em alguns momentos se aproxima da atração, mas logo se desvia com uma brincadeira de que a única barreira seria o fato de exatamente a outra ser uma mulher. Qual foi o objetivo? (Confesso que esse contexto, por vezes, me desviou da verdadeira relação entre as duas)
MM - Na verdade era Lucinda quem brincava que, se Lígia fosse homem, se casaria com ela. O amor de Lucinda por Lígia sempre foi mais intenso do que o de Lígia por Lucinda, e isso é explicado pelo fato de que Lucinda é mais sensível (foi criada por outra família, teve outra educação); Lígia é menos sentimental, então por isso se afastou de Lucinda com mais facilidade do que Lucinda dela. Quando algum leitor cogita lesbianismo, não discuto. A história explica tudo.

TA - Em toda a sua produção, mas em Colar de Pérolas & O Pingente é notório, você trata cada personagem como se fosse um ourives. O detalha, traz seu brilho interior. Mas e os homens, qual é o papel deles nesse universo feminino?
MM – Os homens são nossos iguais mesmo sendo diferentes. O universo masculino completa o feminino e ambos encontram equilíbrio dentro do universo deles. Homens e mulheres sentem, sofrem, amam, abandonam. O que muda são os modos e os motivos para isso. Por eu ter tido largo convívio com meus irmãos e, consequentemente com os amigos deles, eu usando boné e calças pra me sentir mais próxima, jogando bilhar com eles, falando palavrão como eles, jogando cartas, montando cavalos inamistosos... Aprendi muito sobre homens com homens. Tive muitas amigas, mas até hoje meu número de amigos é maior do que o de amigas, embora com a maioria deles eu tenha tido de delimitar claramente que só teríamos amizade, na exata acepção da palavra. Aquele amigo que quer só a amizade permanece ao meu lado. Tenho amigos antigos como eu (risos). No entanto, admito que notei neles um senso de impiedade do qual nós mulheres, salvo exceções, somos incapazes; é inatural a nossa concepção feminil. Enquanto lá na fazenda eles matavam passarinho por diversão, eu corria a ver se no ninho havia filhotes que iriam precisar de cuidados, até poderem sobreviver sem a mãe. Cuidei de alguns. Salvava os que podia. Eles se divertiam e eu bancava a enfermeira.

TA - Novas histórias a caminho? Alguma dica para o novo enredo?
MM - Nesse ano nós teremos quatro edições. Colar de Pérolas 2ª ed., O Pingente 1ª ed. e Colar de Pérolas & O Pingente 1ª ed. Também tem Meu Caderno não Mente – O Diário de Heloísa, além do recém lançado Os Amigos de Sempre.



Se a promessa realmente vingar, quem sentir saudade de Maria Montillarez pode encontrá-la em sua obra:

2005 – 1ª Ed. Colar de Pérolas (publicado em 2006)
2006 – O Pingente
2006 – Os Amigos de sempre (publicado em 2010)
2006 – 1ª Ed. De Arrebol (publicado em 2006)
2007 – Meu Caderno não Mente – O Diário de Heloísa (publicado em 2010)
2007 – O Raio não o Partiu
2007 – Dormi com a Morte e Acordei Vivo
2007 – A Filha de Minha Mulher
2009 – Cartilha para o Escritor Iniciante (publicada em 2010)
2010 – Terra fértil: adubada com homens
2010 – Contos e crônicas da loucura
2011 – A Relevância das Lexias Textuais, Complexas e Compostas na Literatura e
na Oralidade
2011 – Colar de Pérolas & O Pingente



tamyris.jornalismo@gmail.com

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