15 de set de 2014

A suicida *



Dionísio é um desportista e todas as manhãs corre à beira do lago. Há três dias observa uma mulher trajando roupa branca, parada a olhar o rio. Ou está sentada segurando os joelhos ou de pé, mas olhando o rio.
– Que hábito estranho! Se é que se trata de hábito! – pensou e prosseguiu em seu trajeto.
No dia seguinte, o quarto dia, viu-a novamente e resolveu ir falar com ela.
– Bom dia, senhora. Desculpe, se a incomodo. Na verdade, meu espírito de futriqueiro me cutuca, pois há dias vejo a senhora assim, olhando para o rio.
– Não se moleste. Estudo meu futuro, olhando para ele.
– Não entendi.
– Vou me matar e estou fazendo isso premeditadamente. Não conte à polícia; poderiam tentar me impedir. – Eu ia abrir a boca para protestar, mas ela notou, e erguendo a voz, atalhou-me: – Ora, moço, tenho esse direito!
– Não senhora!
– Não acha que tenho o direito de arbitrar sobre mim mesma?
– O direito é o que menos contesto. Minha negação é um protesto. Como uma moça tão bonita pode calcular seu fim? Tem um motivo?
– Estou buscando um.
– Como?! Nem sequer tem um motivo? Está deprimida. É isso.
– Amigo, se todos nós algum dia morreremos, decidi que quero escolher meu tipo de morte. Quero decidir sobre, como, quando e onde.
Dionísio pensou um pouco. Não concluiu nada, achou muito louco e preferiu seguir sua corrida matinal. Talvez, de sangue frio, pudesse entender aquela doidice. Isso fez que ele pensasse, deveras, sobre fim e começo.
Não se escolhe quando, nem onde nascer; não se escolhe quando, nem onde morrer, onde estaria, então, o livre arbítrio? Poderia acontecer de aquela mulher morrer atropelada ou ter um ataque fulminante do coração. Seus planos de termo planejado seriam interrompidos sem que ela pudesse fazer nada. Ora, ansiedade para morrer! Essa era nova!
Talvez devesse adverti-la de que o universo poderia, simplesmente, não dar a ela esse gostinho. Portanto, pensou ele, um dia, minutos, segundos, que ela perdesse planejando tempo, local e modo para morrer, poderia ser atrapalhado um plano universal superior ao dela. Quem sabe, diria a ela para premeditar menos e agir mais?



*Trecho do livro: ARREBOL, da escritora Maria Montillarez

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Boa leitura,

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