12 de set de 2014

Dedo-amigo *



Minha luz estava apagada quando abandonei Adriana. Ela tinha cinco anos, chorava estendendo-me a mãozinha, enquanto eu ia embora. Minha mãe e meu pai estavam mortos. Eu tinha de ir, matando também Adrianinha, porque quando perdemos quem amamos, alguém tem de pagar, e se não aparecer um culpado real, pegamos alguém que amamos muito e punimos, como se disséssemos a nós mesmos que devemos perder tudo logo, numa dor só.

Fugi, cresci, ganhei dinheiro, fiquei situado, mas não havia uma noite em que eu não me lembrasse de Adriana. Minha consciência me dizia que eu a abandonara por motivo fútil, porém, como minha treva interior – a da alma – não cedia, os anos se passaram.

Chegou-me um convite de casamento dela – que ousadia! Enviei-lhe uma grande soma em dinheiro, como presente, supondo que isso fosse magoá-la. Mas confirmei minha presença. O presente não foi devolvido, então dei por certo que seria bem recebido. Compareci ao casamento.

 Adriana, de fato, mal não me recebeu. Porém, o que ela me disse ao pé do ouvido, me aterrou e me fez repensar minha vida. Noutras circunstâncias não me teria tocado, mas naquele momento eu estava me sentindo completo, de passado devidamente punido, no tamanho de minha justiça e sentindo-me perdoado. Como fora fácil! Eu pensara. Sim, eu estava feliz, em um momento raro de paz. Minha alma estava iluminada, e foi por isso que minha sensibilidade me golpeou com as palavras que ouvi de Adriana. Ela me sussurrou que eu não significava mais do que um mero convidado, um estranho. Agradeceu-me pelo rico presente e me disse que ele seria somado aos outros milhões que ganharia em sua longa vida e que seguiria meu exemplo, importando-se apenas consigo mesma, com o marido, e com os filhos que, por ventura, viesse a ter, o que já a tornaria bem superior a mim, pois eu a abandonara.

Deu-me uma prova de seu intento, quando abandonou, meses depois, nossa tia – que tia que generosamente a criara – numa clínica para doentes mentais. Nunca mais foi visitá-la.

Minha irmãzinha se tornara, portanto, minha discípula exemplar. 


*Trecho do livro: ARREBOL, da escritora Maria Montillarez

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Boa leitura,

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