15 de set de 2014

O Carro de boi e os dois litros de areia *



Por volta do ano de 1940, muitos fazendeiros da região da Lapa de Pamplona (e sitiantes), antes da emancipação política de Vazante, que aconteceu em 12 de dezembro de 1953, começaram a construir casas na Vila da Lapa.  Foi quando Salatiel Valeriano Corrêa, um homem altivo, resolveu iniciar a construção de sua casa. Para isso,  havia muita gente trabalhando em várias frentes. Salatiel pediu ao Antônio Belo e Zé do Astor que escolhessem parelhas boas, e frisou: “Tenho as melhores.”, e um excelente carro de boi: “Tenho um dos melhores.”, e fossem buscar areia no Rio Catarina (Santa Catarina). Antônio Belo e Zé do Astor cangaram 18 bois escolhidos a dedo e buscaram a primeira viagem de areia. O carro rangeu com o peso da carga , mas ao chegarem à construção, Salatiel olhou, esnobe, e disse: “Uai!, vocês com tantos bois, e trazem só dois litros de areia!”, ou seja, Salatiel queria dar a entender a Antônio Belo e Zé do Astor, que o seu carro e boi era “superior”, e com ele se podia muito, muito mais! Ora, era o homem quem mandava, não era? Assim, sob aquelas subentendidas ordens, Antônio Belo e Zé do Astor, respeitosamente calados, descarregaram o carro e voltaram para uma segunda viagem, e no caminho combinaram: “Dessa vez, vamos caprichar na carga de areia para satisfazer o Salatiel”. E assim fizeram. Quando tocaram o carro, ele já iniciou arrastando o eixo na areia,  e chegando a terra mais firme o carro parou. Gritaram com a boiada, e os 18 bois puxaram com mais firmeza. Daí só ouviram o estouro. O cabeçalho do carro não aguentou a força e arrebentou na marmela, no encontro das chedas. Olharam um para o outro se disseram: “O carro de estimação do homem!...” Chegarem à construção, arrastando o pedaço do cabeçalho, Salatiel perguntou o que havia acontecido.  Eles responderam: “O carro não aguentou os dois litro de areia.” Salatiel, envergonhado perante a diplomacia daqueles dois bons homens, simplesmente olhou para o chão (deve ter feito um mea culpa de si pra si) e humildemente falou: “Não tem importância não, lá na fazenda do Claro tem madeira para a construção de vários cabeçalhos, madeira tirada na Mata Preta. Vou falar com o Zé Camilo pra fazer outro cabeçalho. Peguem outro carro e vão buscar mais areia. Mais, dessa vez não encham tanto os litros.” 


* Trecho do livro: FESTAS DE CARROS DE BOI, do escritor Rogério Corrêa

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Boa leitura,

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