9 de set de 2014

Revertido


       Códigos e etiquetas sociais, civilidade, hipocrisia. A mentira social dá certo equilíbrio às estruturas de convívio. Sem isso, todos viveríamos no limite da insanidade? Ninguém suportaria a verdade, ou faltou apenas ‒ apenas! ‒ aculturarmo-nos a ela? 

A sala: duas réstias de luz, de cá, de lá, tal qual as correntes presas aos pés e mãos de Revertido. Elas se cruzavam à sua frente, num encontro gratuito. Os olhos verdes, agora avermelhados dele, fixavam-se sobre o ponto de encontro.
Fome. Sede. Dores. Exaustão.
E aquela luz brilhando até chegar a noite e apagá-la, anunciando o sono.
Sono.
Há dois dias, esse prisioneiro não tinha um nome conhecido. Disse se chamar Revertido.
– Isso é nome? Em que língua?
– E daí? Se não tem documento, o nome dele é va-ga-bun-do!
– Ortiz, você não está mais na polícia.
– Rê, rê, rê! Aqui sou mais que polícia! Polícia não vem a este lugar. Sou tudo, aqui. Sou deus!
– Ele vai morrer, não come... Então é matar ele logo – pêi! Um teco e pronto.
– Quem é que dá as ordens aqui, hem, Zecão?
– Arre!, é tu, Ortiz.
– Então, eu decido, se teco, não teco, quando teco.
Esse par de seres que dialogava tinha outros em volta deles, dentro de uma casa de alvenaria muito boa e com luxos, apetrechos estranhos de se imaginar em um lugar tão longe da civilização. Era preciso viajar de avião ou de barco. De barco, a viagem durava muitos dias, para só então, apeando à margem, pegar outro transporte e fazer longo trajeto por uma estrada não-oficial, a certa altura, e tomar uma vicinal que ia dar nesse povoado, ou cidadela daquele deus pagão, de justiça própria e Estado ausente.
O povo vivente ali, não era muito, mas Ortiz gostava de responder por eles. Nas eleições, fazia todo mundo votar. Uma vez por ano, embarcava todas as mulheres e levava para uma capital qualquer. A cada ano ele as reunia e dava uma festa, mandando que escolhessem no mapa para qual capital do país queriam ir. Elas tinham a chance de fazer o exame preventivo anual e ainda passeavam pra conhecer os shoppings das capitais. Voltavam tão animadas e cheias de histórias, que Ortiz não tinha problema em convencer nenhuma a fazer as viagens longas, cansativas e constrangedoras em seu objetivo principal.
Havia uma pequena escola, e ele fez um candidato mandar professores para lá. Os professores não queriam ficar, mas Ortiz ia promovendo-os com tantas vantagens e agrados, que assim conseguia manter alguns, o mesmo fazendo com um clínico geral, o único. Nunca conseguiu outros, esse vivia bêbado, dava trabalho, mas quebrava muitos galhos, salvava muitas vidas. No mais, a cidade não era cidade. Nada funcionava como deveria. E agora os rapazes, seus “soldados”, haviam encontrado aquele Revertido na mata, vestido normalmente (isso não quer dizer à moda ou estilo qualquer, apenas vestido). Quem ou o quê era ele?
Revertido não comia, mas ao arrebol* ele clamava que o estavam matando de fome. A refeição lhe era servida, mas o prato voltava intocado. Ortiz foi falar com ele.
– Não posso soltar você, não sei quem você é. Aqui somos nós por nós mesmos, e se você for um criminoso, e eu lhe soltar... Se depois eu lhe pegar fazendo asneira, lhe dou um teco. Então eu precisava que você me desse algum tipo de alternativa pra não ter de matar você. Nós aqui não temos costume de manter prisioneiro. É caro e despropositado. Até as crianças sabem que os seres humanos não mudam.

Trecho do livro: ARREBOL, da escritora Maria Montillarez

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Boa leitura,

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