30 de out de 2014

O dedo *

Sou gato. Está na cara, nos olhos azuis, no corpo peludo.  Não posso negar esse óbvio. Sei que não posso, porque, em abundante vaidade já tentei negar, mas sai-me pelos poros todo esse viço.
Como todo animal, tenho faro, mas sou ousado, abuso e preciso transpor os limites, a fim de saber o que permitem, ou não, a um gato da minha laia.
Não trepo em qualquer cantinho; lugares vulgares não
fazem meu gênero; não sou vira-latas e tenho estilo. Sou um gato de bom gosto, ligeiramente reservado e de coração benigno. Meu nome é... Gato!
– Gato!
Ouviram? Eu disse que me chamam Gato. Adiantaria negar, se a fama brada à minha porta? As gatinhas me adoram, miam por mim. Atualmente o que me inquieta é ter encafifado que não vou envelhecer.
– Gato!
– Já vou! – abri a porta e dei com Mariana.
– O que foi lindona? Não grite assim, que acorda a vizinhança.
– Quem tá aí contigo? – Ela perguntou, enfiando a cabeça pelo vão da minha porta, interrompida pelo meu atlético físico. Voltou-se a posição anterior e mordiscou uma unha, já quase em sangue.
– Ninguém tá lá dentro, Marianinha. Você é muito possessiva, para uma lindeza.
– O que tem a ver?
– Tem a ver, que tanta formosura, minha paixão, não devia lhe permitir tamanha insegurança.
– Tu não vai me fazer de boba, Gato. Se papai souber que tu anda me traindo, ele arranca teu couro com água quente! Além do mais, sou cobra criada! – advertiu-me e abaixou a mão; cessou parcialmente o sibilar (não o vadiar). Num repente, apalpou meu órgão identificador. Saltei para trás.
– Que isso, mulher?!
– Vai ficar sem ele, se me chifrar. Ouvi você falando com alguém. Eu ouvi. Só não vi quem era. Tava no corredor, e se enfiou numa dessas tocas aí? Tem mais ap nesse prédio do que cela em presídio estadual – murmurou em meu ouvido, a aprendiz de serpente.
Em sua pouca idade, já dominava a arte do amor profissional. Disso, o pai dela não sabia. De mim, ela não cobrava, é claro, pois que sou eu lindo, gostoso, a meta, o Gato! Sei o que sou: um felino garboso, um prêmio para algumas privilegiadas gatinhas. Nem ligo, se invejosos me acusam de gabarola, se elas atestam diariamente meu valor. Os invejosos que se lixem!
– Dei pra falar sozinho, lindeza – expliquei, sem convencer muito. – Preciso pedir permissão pra falar sozinho? Deixe disso, sabe que sou teu! – Ela ria enquanto eu cheirava seu pescoço, e foi amolecendo. – É novo esse perfume – farejei.
Gatinhas ficam loucas quando a gente “dá uma dentro” e nota qualquer novidade. Na verdade, eu chutei. Aquele podia muito bem ser o perfume de sempre, aí eu me fingiria de equivocado.
– Tu notou, foi? É novinho mesmo. Botei pra ti.
Na mosca! Puxei a mulher pra dentro, porque se eu encostava, meu amigo queria trabalhar. Toda vida fui um gato assanhado, e é moda em meu país: “Caiu na rede é peixe”.
A vizinhança ficava doida, porque em meu ap não havia isolante acústico, e a satisfação mútua que acontecia sobre meu colchão fazia estremecer os arredores.
Habitualmente as mocinhas moradoras ao me encontrarem no elevador se riam – as menos assanhadas – e abaixavam as vistas; não me encaravam.
Aprendi isso sobre garotas: se olham para o sujeito e abaixam as vistas, são mais do que simplesmente tímidas. Existe nesse pequeno gesto um indicativo de moça séria, recatada, dessas ideais para se casar. Eu tratava de fugir delas, por mais formosas que fossem.
De outro modo, se gatinhas me fitavam nos olhos e sustentavam, era um convite, estavam “dando mole”, aí era só jogar um charme; um convite, e pronto, entravam no meu ap.
Os mais adultos – quase sempre os pais destas mocinhas –, miravam-me com olhar repreensivo, crítico, severo. Eu saía escorregando pela lateral da porta do elevador, com medo de apanhar.
Os senhores idosos, se não me olhavam com ar de reverência, como fosse eu alguma autoridade (e era, do sexo!), não me destratavam; os que me respeitavam me davam tapinhas às costas e diziam jocosamente:
– Tem de se alimentar bem, Alex, pra manter o vigor. – E piscavam em cumplicidade. – Cê tá me entendendo, filho?
– Claro, claro. Obrigado pela preocupação.
– Já tive a sua idade, sei como é.
Meu problema eram as senhoras mais idosas e solitárias. A mais atrevida (se é que posso eu falar em alguém atrevido, sem a seta apontar para mim mesmo), era dona Suzete. Diziam que tinha mais de setenta. Que mulher fogosa!
Sempre fui gentil e atencioso com ela, pois o dever dos mais jovens é também ser atenciosos com os mais velhos. Eu cumpria meu dever social para com ela, quando sobrava uma vaga em minha lotada agenda. Geralmente ela não me cobrava exclusividade, e seria um despropósito fazê-lo, já que eu era um gato em pleno vigor físico, e não ajustáramos vínculo algum. A exceção era Mariana, com quem ela implicava.
Dona Suzete tentava retribuir minhas gentilezas com dinheiro, relógio de ouro... Certo dia ofereceu-me de presente um carro. Esses oferecimentos me aborreciam, porque o que a natureza me ofertara gratuitamente, eu não iria empenhar por dinheiro, por presentes. Isso não! Ela me deveria aceitar sempre de brinde, como uma compensação pela vida infeliz e miserável que tivera até ali, abandonada pelos filhos, viúva, enfim. Eu me fizera seu prêmio, embora ela teimasse em não me querer aceitar de graça.
– Acha que vou querer mandar em você, se aceitar meus agrados, menino Alex?
– Não é nada disso, dona Suzete. Só não é princípio meu, aceitar pagamento maior do que o prazer puro e simples.
Ela fazia cara de feliz por imaginar que ainda pudesse proporcionar prazer a um homem viril, mas mandava o pai de Mariana entregá-los a mim, assim mesmo. O pai de Mariana era seu empregado de confiança. Certa vez, ela segredou-me:
– O menino, pai de Mariana, fede igual a um gambá, do pé à boca! Por isso, não aceito chamegos com ele. É do ofício pro lixo, o pobrezinho. Ouviu, menino Alex? Chamegos com ele, nem pensar! – enfatizou, decerto, em receio de eu ter ciúmes.
Depois de o pai de Mariana me entregar encomendas de dona Suzete, eu tinha um trabalhão para devolvê-las. Era a parte mais chata. Não o devolver; o trabalhar. Eu não gostava de trabalhar, inda mais se tivesse de trabalhar fixo, com patrão no meu pé, ordenando, cobrando. No caso dos presentes, eu era meu patrão me cobrando rapidez. Queimavam-me as mãos e dava-me a sensação de estar extorquindo velhinhas. Pecaminoso demais até para gatos do meu estilo.
Apesar de não apreciar trabalho, eu trabalhava. Tinha de comprar meu sal, minhas vitaminas, minhas poucas roupas.
Meu trabalho era, portanto, autônomo. Eu vendia crônicas a um colunista famoso. Colunista que sabia bulhufas da arte de escrever crônicas. Até lê-las, ele lia mal. Então, eu as escrevia e ele as assinava e as publicava como suas. Eu faturava o suficiente com esse trampo. O ap era meu, de herança; com problema de aluguel, eu não penava. Estava na metade da última crônica, quando fui interrompido por Mariana.
Marianinha saiu feliz do meu ap., depois de constatar que lá só havia eu, naquela manhã. Ouvi-a cumprimentar dona Suzete e adormeci.
Não me lembro de possuir nenhuma camisola de dormir. Fui sempre um gato largado e dormia de qualquer jeito, de cueca, de calça jeans, nu. Remexi-me dentro de um camisolão de cor frufru e não fazia ideia de como fora parar dentro dele. Aquilo não era traje para um gato! Senti como que uma brisa em meu pescoço e voltei o olhar pelos arredores da minha cama. Eu não estava em minha cama, não era meu quarto. Muitas pessoas estavam aglomeradas a volta de algum evento que não deveria ser nada alegre. Eu não podia afirmar que fosse o contrário, porque não as estava vendo de frente.
Reparei que dois homens conversavam e me aproximei deles. Não se demonstraram incomodados com minha presença, nem com minha vestimenta incomum. Não se inibiram em sua discussão perante mim, como fosse eu transparente.
– Ela residia nesse prédio há mais de vinte anos. Dizem que viu o garoto nascer. O que não entendo é porque uma senhora idosa chegou a esse ponto.
O outro homem, pelo trajar era policial, anuiu de cabeça e afirmou:
– Ela efetuou um disparo na cabeça dele, com uma .44, e um comparsa arremessou-o da sacada. Esse meliante é o pai de uma tal Mariana, e evadiu-se.
– Foi a tal que pagou as despesas e comprou a mortalha roxa do enterro?
Eu caí sentado. Que loucura era aquela? Então aquele cenário era o de um enterro? Mortalha roxa? Fui ficando mais surpreso e ouvi a voz de Mariana.
– Fui eu mesma que paguei tudo. Eu gostava dele! Não era um mau sujeito, sabe? Aquela velha miserável, infeliz! Como pôde fazer uma barbaridade dessas?! E meu pai? Eu não acredito que ele ajudou a ela nisso! O Gato era bom, era sim!
Um clarão ofuscou minha vista e nada mais pude ver, nem ouvir.
Ainda não envelheci, nem terminei a crônica que estava escrevendo, cujo tema era a “melhor idade”, e me inspirava em dona Suzete. Fui impedido, sem ter culpa de ter nascido gato.
Felizmente, terei ainda mais seis vidas. Nas cinco vidas sequentes, escreverei minhas crônicas, encontrarei outras Marianas, outras senhorinhas solitárias para acalorar; poderei aprender a ser um gato menos fátuo. Porém, para essa vida que se aproximava – a segunda – desejei ser consciência. Desejei do meu âmago, com a força das profundidades, a força de quem foi traído em seu sentimento mais puro. Não desejei ser uma consciência qualquer ou a consciência de qualquer um. Almejei reviver como a consciência de minha assassina solitária, com quem fui completo cavalheiro. Concentrei-me nela.
Dona Suzete foi encontrada morta, poucas horas depois, vítima de parada cardíaca.
Ainda não existe diagnóstico capaz de apontar a consciência como causa mortis.




* Trecho do livro: ARREBOL, de Maria Montillarez

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Boa leitura!

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