4 de jun de 2018

O jeito foi mudar a casa de lugar! Trecho do livro Histórias do Além, de Rogério Corrêa

O jeito foi mudar a casa de lugar!

  
Há muito tempo aconteceu algo assustador a um casal de irmãos. Naquela época uma moça e seu irmão moravam em uma antiga casa, numa fazenda que herdaram dos pais, que por sua vez, haviam herdado dos pais, avós desses irmãos.
Geralmente as fazendas eram afastadas (ainda são) umas das outras, e na maioria das vezes os rapazes namoravam filhas dos vizinhos, para não terem de se locomoverem para tão longe, e o cavalo, era o principal meio de transporte.
Em um dia atípico, de tardezinha a moça começou a sentir uns arrepios estranhos e decidiu ir à casa da vizinha para não ficar sozinha, porque o seu irmão tinha ido a cavalo distante dali, para namorar.
A vizinha era muito pobre e tinha vários filhos. Prosearam, jantaram, e lá pelas 8 horas o filho mais velho chegou com alguns primos para dormirem na casa. A moça assustada, tinha pensado em dormir na vizinha, porém, não teve como, porque as camas eram insuficientes para todos.
Em cada uma das camas já iria dormir mais de uma pessoa, então, ela retornou sozinha para sua casa, naquela noite escura, e preparou a cama para dormir.
Naquele tempo não tinha energia elétrica nas fazendas, só lamparinas e candeias. De repente, algo deu um puxão em sua coberta. Ela acendeu a lamparina e não viu nada. Aumentou o pavio para iluminar mais, conferiu todas as tramelas[1] das portas e janelas para ver se estavam bem fechadas, também olhou debaixo das camas.
Depois de procurar bastante e não encontrar nada, tornou a sentir os arrepios e bateu aquele medo danado. Mas, pensou que poderia ser um rato e ele tinha se escondido no assoalho, então resolveu voltar para a cama, apagou a lamparina.
Passou-se um tempinho, e algo deu novo puxão em sua coberta. A moça novamente acendeu a lamparina, olhou, e nada viu.
O medo já tinha tomado conta dela, então, dessa vez, deixou a lamparina acessa mais tempo, pensando que o seu irmão chegaria rápido. Mas, não chegou.
Outra vez apagou a lamparina, e, depois de um longo tempo, a coberta da cama foi puxada outra vez, mas, com tanta força, que foi parar no outro canto do quarto.
A moça disse que só não morreu, porque seu coração devia estar muito saudável. Ficou tão apavorada, e, como dormir estava fora de questão, resolveu sair de dentro de casa e aguardar o retorno do seu irmão do lado de fora.
Não demorou muito, e escutou, ao longe o galopar do cavalo vindo em sua direção. Gritou o nome do irmão e ele respondeu. Ele quis saber os motivos dela não estar dormindo, e ela contou o que tinha acontecido. Ele sorriu muito, e disse que era tudo coisa da cabeça dela, já que nunca tinha sucedido algo daquela natureza na fazenda ou vizinhança.
Mas, a moça estava tão assombrada, e o susto tinha sido tal que ela teve de dormir com o irmão, todavia, naquela noite não houve mais incidentes.
No dia seguinte a moça disse ao irmão que não dormiria mais na casa, e, preparou suas roupas e as colocou em uma mala, despediu-se do irmão e seguiu para a estrada de terra por onde um ônibus passaria pela manhã, em direção à cidade mais próxima. Iria para a casa de familiares.
Contudo, o irmão não quis acreditar naquilo que lhe pareceram supostas assombrações sofridas pela irmã, e ficou sozinho na casa.
Alguns dias se passaram, e aconteceram coisas bem piores com ele: tomaram a coberta, escutou rinchados, gritos e latidos dentro da casa, e, quando acendia a lamparina não via nada. O medo foi tão grande que na mesma noite ele saiu da casa e foi dormir na fazenda do pai de sua namorada.
Ao chegar lá na fazenda contou a eles o que aconteceu à sua irmã e a ele. O assunto foi largamente discutido e os mais entendidos lhe aconselharam: “O jeito é mudar a casa de lugar!”
Nos dias que se seguiram permanecia na propriedade até a tarde, e, antes do anoitecer seguia para a fazenda da namorada. Ao mesmo tempo avisava os amigos que iria fazer um mutirão para desmanchar a casa.
Poucos dias depois desmancharam a casa e fizeram outra próxima à estrada e a um pequeno córrego.
Apesar de haverem mudado a casa de lugar, a moça ficou com tanto receio de dormir na casa, que pouco se lhe dava terem-na mudado de lugar. Nunca mais voltou lá para pernoitar. Contudo, o irmão dela permaneceu lá, e, felizmente, o que quer que houvesse de mal-assombrado, não acompanhou a casa na mudança, e o rapaz pôde dormir em paz.


[1]Tramela: é uma espécie de tranca para portas e janelas de madeira, que é feita com um pedaço de madeira resistente, com um furo no centro. Ela é pregada no batente das portas e janelas, de tal modo que pode ser girada para trancar ou destrancar.

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Cicatrizes feitas pela onça

*Trecho do livro Histórias de Carreiros, de Rogério Corrêa

"Cicatrizes feitas pela onça

            Para quem habita em um grande centro urbano não imagina algo assim, mas mesmo na atualidade acontecem alguns incidentes com animais selvagens mesmo próximo de cidades.


Vander Alves Pereira, 70 anos, narrou que há uns cinquenta anos, na época em
que ele era festeiro da romaria da Nossa Senhora da Lapa, ao ver um senhor com várias cicatrizes no rosto, perguntou ao homem qual era a história delas. Esse homem contou a ele que estava em Vazante pagando uma promessa à Nossa Senhora da Lapa, por ter salvado a vida dele. Sua vida estivera em risco quando, andando a pé em suas terras, sentiu o peso de algo que saltara sobre suas costas. Percebeu que era uma onça, e foi jogado ao chão.  Já sentindo as mordidas dela, ficou sem reação, mas estava consciente. Nesse momento ele clamou à Nossa Senhora para salvar-lhe a vida. A onça o arrastou para próximo a uma das margens de um rio onde estavam os filhotes dela, e se afastou um pouco do local.  Ele mergulhou no rio largo. Nesse momento a onça ouviu o barulho e o acompanhou, ele nadando, e ela indo pelo barranco ao lado do rio, por looonnngo tempo até desistir. Segundo esse homem, quando caiu na água e molhou os ferimentos quase não suportou a dor. Entretanto, a Santa lhe deu forças, e ele conseguiu nadar e sobreviver."*

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Nesse torvelinho, Lucinda da Consolação de Gusmão vive mais uma de suas extravagantes e surpreendentes histórias. Dessa vez, a pedido de Matilde Herrera, Lucinda cruza o Nordeste brasileiro a fim de contar a história de um místico, Aglásio, filho de Matilde, aclamado por seus feitos. 


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